Bromidrose na Dermatologia: etiologia, diagnóstico e manejo clínico

1. Definição e relevância clínica

A bromidrose (do grego bromos = odor + hidros = suor) é definida como a produção de odor corporal fétido e persistente, geralmente relacionado à decomposição bacteriana do suor apócrino ou écrino. Embora não represente uma condição orgânica grave, cursa com significativo impacto psicossocial, podendo levar a isolamento social, ansiedade e depressão. Na prática dermatológica, a bromidrose é considerada um diagnóstico de exclusão, devendo-se afastar causas sistêmicas ou infecciosas de mau odor.

Fonte: Kanlayavattanakul M, Lourith N. Body malodours and their topical treatment agents. Int J Cosmet Sci. 2021;43(3):298-311.

2. Epidemiologia

Dados epidemiológicos precisos são escassos devido à subnotificação e ao constrangimento dos pacientes. Estima-se que até 3% da população geral apresente queixas relacionadas à bromidrose em algum momento da vida, com maior prevalência em:

A condição afeta igualmente ambos os sexos, embora o odor axilar seja mais percebido como problemático em mulheres devido a fatores socioculturais.

Fonte: Semprini A, et al. Axillary osmidrosis: pathophysiology and treatment. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2019;33(8):1468-1475.

3. Etiologia e fisiopatologia

O suor humano naturalmente é inodoro quando produzido. O odor característico da bromidrose resulta da ação de bactérias saprófitas sobre compostos presentes no suor, gerando metabólitos voláteis malcheirosos.

3.1 Glândulas envolvidas

Tipo glandular Secreção Principal localização Papel na bromidrose
Écrina Aquosa, rica em NaCl, ureia, lactato Quase toda superfície corporal Pouco relevante – odor ocorre apenas em situações de retenção ou hiperidrose com maceração
Apócrina Viscosa, rica em lipídeos, proteínas, ferro Axilas, região anogenital, mamilos, conduto auditivo externo Principal responsável – degradação bacteriana de ácidos graxos e esteroides gera odor característico

3.2 Mecanismos bioquímicos

As bactérias Corynebacterium spp., Staphylococcus hominis, Micrococcus spp. e Cutibacterium spp. hidrolisam precursores inodoros presentes no suor apócrino:

Na bromidrose axilar, a contribuição do ácido trans-3-metil-2-hexenoico (odor de curry) tem sido recentemente identificada como marcador específico.

3.3 Fatores predisponentes

Fonte: James WD, Elston D, Treat JR, Rosenbach MA. Andrews' Diseases of the Skin: Clinical Dermatology. 13th ed. Elsevier; 2019.

4. Classificação da bromidrose

Tipo Característica
Bromidrose apócrina Mais comum (axilas, região anogenital). Odor intenso, aparece após a puberdade. Relacionada à ação bacteriana sobre suor apócrino.
Bromidrose écrina Rara. Ocorre quando o suor écrino permanece retido sobre a pele (hiperidrose, oclusão) e sofre degradação por bactérias ou fungos. Ex.: odores em pés (podobromidrose).
Bromidrose sistêmica (metabólica) Origem endógena: compostos odoríferos são excretados pelas glândulas écrinas ou pela respiração. Ex.: trimetilaminúria, insuficiência hepática, algumas intoxicações.
Bromidrose psicogênica Paciente relata odor fétido que não é objetivamente confirmado. Geralmente associado a transtorno delirante (síndrome de referência olfatória) ou transtorno de ansiedade.
Fonte: Mori N, et al. Classification of axillary osmidrosis and treatment algorithm. Dermatol Surg. 2020;46(5):654-661.

5. Diagnóstico

5.1 Anamnese direcionada

5.2 Exame físico

5.3 Exames complementares (selecionados)

Exame Indicação
Teste do cotonete com cultura bacteriana Suspeita de infecção secundária ou colonização por Corynebacterium resistente
Teste de trimetilamina urinária (após carga de colina) Suspeita de trimetilaminúria
Cromatografia gasosa-espectrometria de massa (GC-MS) do suor Pesquisa de compostos específicos (âmbito de pesquisa)
Biópsia cutânea Raramente indicada; útil se suspeita de hamartoma apócrino

5.4 Diagnóstico diferencial

Fonte: Vazquez BG. Bromhidrosis: a review. J Clin Aesthet Dermatol. 2018;11(12):35-39.

6. Abordagem terapêutica

O manejo da bromidrose deve ser gradual, individualizado e multimodal.

6.1 Medidas gerais e de higiene (primeira linha)

6.2 Antitranspirantes tópicos

6.3 Antibacterianos tópicos

6.4 Procedimentos minimamente invasivos (segunda linha)

Procedimento Mecanismo Evidência
Toxina botulínica tipo A (intradérmica na axila) Bloqueio colinérgico das glândulas écrinas e, indiretamente, redução do substrato para bactérias Eficácia bem estabelecida para hiperidrose associada; efeito dura 4-6 meses
Iontoforese com água da torneira ou glicopirrônio Redução da sudorese écrina (mais usada em mãos/pés) Moderada para bromidrose plantar
Microondas (MiraDry®) Ablação termal das glândulas sudoríparas Alta eficácia para bromidrose axilar; procedimento único, resultados permanentes

6.5 Tratamento cirúrgico (terceira linha – casos refratários graves)

6.6 Abordagem da bromidrose sistêmica

Fonte: Lee D, et al. Treatment of axillary osmidrosis: a systematic review. J Cosmet Dermatol. 2022;21(7):2740-2749.

7. Impacto psicossocial e manejo interdisciplinar

A bromidrose pode ser altamente incapacitante do ponto de vista psicossocial. Pacientes frequentemente evitam contato social, praticam múltiplas trocas de roupa e desenvolvem ansiedade antecipatória. Recomenda-se:

Fonte: Paradisi A, et al. Psychosocial aspects of bromhidrosis. G Ital Dermatol Venereol. 2019;154(3):318-324.

8. Conclusão e recomendações práticas

9. Referências bibliográficas

Explore os tratamentos e dúvidas:

Tratamento Clínico (Bromidrose) Conheça a abordagem prática e os protocolos da Dra. Caroline Minchio. FAQ: Dúvidas sobre Odor As maiores dúvidas sobre o mau cheiro nas axilas respondidas. Hiperidrose (Suor Excessivo) Entenda a relação do suor com a proliferação bacteriana e como controlar.
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